11 junho 2014

Por Haniel Barbosa (@HanielB)

Festival é muito bom, adoro festival. Ir para o show de alguma banda que você adora é das melhores coisas da vida, mas festival não é (só) pra isso: é pra curtir dias seguidos de música, entre a maratona de ir de um palco a outro, apostando que shows de bandas que você nunca ouviu antes vão te arrebatar, e se espremer no meio da multidão nos palcos principais pra curtir os headliners que você ama.

O problema de festival é que é difícil ser *realmente* legal, porque precisa-se de escalação ampla e boa, lugar legal, bons headliners, boa estrutura e organização... Por isso que fiquei tão feliz com esse Primavera Sound e que pretendo voltar tanto quanto puder na minha vida. 

O festival acontece em Barcelona, uma cidade foda em que é fácil se hospedar e existir, sendo em um parque enorme que fica na beira da praia. Sério, olha isso:

Palco Ray-Ban. Foto: Haniel Barbosa
Nunca tinha visto um festival tão organizado: era fácil ir e voltar (estação de metrô perto pra ida, ônibus do festival pro centro da cidade na volta de madrugada), tinha uma gama gigantesca de serviços (bares e banheiros perto de todos os palcos, praça de alimentação com várias opções, lojas, serviço de recarga de celular...), além de distribuir muito bem tudo isso e os palcos longo do grande espaço do parque. Mas, acima de tudo, a programação era incrível: não em grandes nomes, apesar de ter alguns, mas em ser ampla e diversificada, em estilos e em estrada. Eram 9 palcos (além de mais 3 especiais), variando em tamanho/tema, com shows acontecendo ininterruptamente das 17:00 às 06:00. Se algum show em que você apostou não estava valendo a pena era só ir pra algum outro palco que as chances de ter algo legal eram altas. Ou podia-se deitar em alguma graminha e esperar dar a hora de um outro show.

Palco ATP. Foto: Haniel Barbosa

Dia 1

Depois de descer na parada errada e andar uma meia hora pela orla de Barcelona (valeu muito a pena ter errado), cheguei ao festival umas 17:00 no primeiro dia, com um solzão e um calor OK. De bandas fechadas mesmo para ver tinha os headliners (Queens of the Stone Age e Arcade Fire) e o Móveis Coloniais de Acaju, que ia tocar de 18h. O resto do tempo iria testando os palcos.

Girl Band. Foto: Haniel Barbosa
Começando a peregrinação fui ao Heineken Hidden Stage, um espaço tipo "inferninho", em que ia tocar a Girl Band. Vi uma parte do show mas acabei desistindo depois de uns 15min. Apesar de começar bem e parecer uma banda legal o show perdeu força com a repetição presente nas músicas --- o mesmo monólogo ininteligível do vocalista com um instrumental caótico que crescia até uma explosão rasgada. Parti pro palco Adiddas Original, onde ia tocar o Móveis.

Palco Addidas Original. Foto: Haniel Barbosa

Esse era o palco mais legal do festival: do lado do mar e com a uma escalação cheia de bandas em geral novas/não-consagradas que eram bem boas. O show do Móveis foi a festa de sempre, atraindo mais e mais gente pra dançar conforme ele prosseguia e terminando lindamente com O Tempo. Ninguém faz festa melhor do que o Móveis, não tem jeito. Como disse o André, na mistura de línguas com a qual ele tentou se comunicar com o público durante o show, "mucha pleasure".

Depois fui ver o The Ex no palco ATP, um dos maiores do festival, em que tocavam as bandas com mais estrada que não eram bem headliners. No caminho pra lá passei por um dos palcos mais legais, o palco Ray-Ban (o da foto do começo), que parece o auditório da Praça Cívica da UFRN. Rodrigo Amarante estava tocando lá pra uma galera que não sei como o aguentava, de forma que só fiz foi acelerar o passo.

Cheguei no meio do show do The Ex, e estava muito legal. É uma banda com que toca em rock meio genérico, mas a energia deles animava bastante o público, com alguns momentos que beiravam o transcendental. Nunca ter ouvido uma banda e se arrepiar com o seu o show é das coisas mais legais que existe. Então, bem, foi um show muito legal de ver. Depois fui pro Ray-Ban pra ver o Antibalas, com um show dançante e cheio de metais. Uma galera tava lá embaixo dançando, enquanto eu comia alguma coisa nas arquibancadas e assistia.

Voltando pro Adiddas Orignal fui ver o Coldair, um one-man-band da Polônia que faz um som atmosférico misturando eletrônico e uma guitarra vibrante. Tava tão legal que quase não saia de lá pra tentar ir pegar um lugar razoável pro show do Queens Of The Stone Age.

Chegando na parte dos palcos principais os primeiros problemas do festival apareceram. Os dois palcos principais, para os headliners, eram gigantes e um de frente para o outro, o que é bom, mas a disposição das grades para conter o público era horrível: o espaço entre a "tenda" com a mesa de som e palco era muito pequeno, além de ter uma pista vip e haver uma separação no meio deste espaço (no plano vertical). O resultado era que se espremia muito mais as pessoas do que o necessário, tornando bem chato estar perto do palco (era a mesma disposição, com os mesmos problemas, do palco do primeiro SWU, em São Paulo, com a diferença de que lá tinha um show do Rage Against The Machine pra tornar tudo mais próximo do desastre). Além disso as barracas de bebida ficavam no meio do espaço para as pessoas, em vez de nas laterais (onde tinha um espaço reservado pros vips), o que não só imprensava mais mas também adicionava o problema de perto dos bares estarem muitas pessoas só conversando alto e nem aí pro show. O que nos leva ao terceiro problema: o som era baixo demais nos palcos principais, nem o PA delay salvava.

Queens of the Stone Age. Foto: Dots and Dashes
No fim das contas fiquei imprensado entre a tenda de som e o palco, e aí Josh Homme e companhia entraram tocando o começo do Songs for the Deaf: You think you ain't worth... e No One Knows. Então começou bem, apesar de o som baixo não ajudava. O show continuava sem realmente "pegar", e eu só me empolguei de verdade com o final de Smooth Sailing (que mais parece uma música do Them Crooked Vultures) que foi seguido por Feel Good Hit of the Summer. Depois disso só o final com A Song for the Dead, quando eu já tinha ido mais pra trás na multidão por ter perdido a paciência com o som horrível do baixo, perto do palco. Eu amo o QOTSA e gostei muito dos outros shows deles que vi, mas dessa vez não teve momentos insanos de transcendentalismo (como com Better Living Through Chemistry ou com I Think I Lost My Headache). Pareciam bem sem vontade e só tocaram uns hits entre as músicas mais ou menos do último disco. Foi irritante e uma decepção.

E aí veio o Arcade Fire. Sofreram também com o som baixo (apesar de afora isso estar perfeito) e com um último disco meio ruim, mas são tão impressionantes em cima de um palco e tão capazes de executarem bem as músicas que têm que o show foi mágico. Eu esperava mais do show porque o outro deles que vi, em um festival em 2011, foi das coisas mais espetaculares da minha vida, com uma bomba atrás da outra. Só que lá eles tinham o Suburbs, aqui era o Reflektor. Mas não há como reclamar da execução que vi de It's Never Over (Oh Orpheus), que quase me fez chorar, ou com o final festeiro e apoteótico com a combinação de Here Comes the Night Time e Wake Up, esta sim bem melhor do que o do outro show (porque espanhol é muito melhor do que francês em fazer festa e em se empolgar em shows).

Arcade Fire. Foto: Dani Canto
Isso eram já quase uma 2:30 da manhã, então depois de recuperar um pouco as forças (e esperar o grosso da multidão sair) peguei o ônibus pro centro, tudo muito organizado e tranquilo. (Estava curioso pra ver o show do Metronomy, pro qual tinha uma galera no Ray-Ban, mas ele começava 3:15, então deixei pra lá).


Dia 2

No segundo dia do festival com o metrô foi bem fácil de chegar, a estação era a menos de 5 min da entrada. Uma vez lá fui direto pro Adiddas Original, onde aconteciam os primeiros shows. Vi uma banda de Barcelona mesmo, a The Saurs, que tocava um rock *nervoso* e muito, muito legal (e que, ao combinar guitarras e bateria com um vocal meio gritado me lembrou o The Baggios). O dia começou muito bem.

The Saurs. Foto: Haniel Barbosa
De lá voltei pro ATP, onde tinha uma colina com graminha meio que de frente pro palco. Deitei e fiquei ouvindo de longe o show do Yamantaka//Sonic Titan, que era no mínimo singular: eles se auto-classificam como "psychedelic and noh-waeve opera band forged assaulting noise, metal, pop and folk", e o pior é que faz sentido. Lá pro meio do show saí do torpor da graminha porque o negócio tava claramente muito bom, indo curtir lá no meio da galera. Terminou apoteótica e subitamente, sem nunca terem falado um ai pro público, o que respeito.

Até essa hora o clima tava oscilando entre ensolarado e nublado, mas então começou a chover forte e corri do palco Ray-Ban, onde a banda Drive-By Truckers tocava (era legal, mas não valia a pena se molhar por), para o Heineken Hidden Stage, que era coberto. Lá tinha o The Wedding Present, que até criou momentos bem legais, com sou rock-pop, mas no geral era só OK. O melhor foi que depois do show a chuva tinha passado, o que facilitou ir para o palco Vice, que era no quase no mar, pra ver o The Twilight
Sad, com seu rock meio atmosférico e vocal possante (barítono?). Essa era uma das poucas bandas que eu havia ouvido antes, então criei uma certa expectativa. Eles a atenderam e muito mais, fazendo um show magnífico e repleto de emoção: o vocalista estava quase às lágrimas em estar tocando pela primeira vez em Barcelona, de frente pro mar, com uma galera curtindo o show. Foi muito bonito e emocionante.

Depois de comer alguma coisa fui pros palcos principais pra dar uma chance ao Pixies. Como esperado, depois de 3 músicas saí correndo. Não entendo, realmente não entendo a histeria. Tava acontecendo um show de black metal no Adiddas Original (Furia) que tentei curtir pra me esquentar (tava muito frio de noite, com um vento atroz vindo do mar), mas não tive paciência pra bate-estaca de Satã. Então fui pro ATP, onde o Slint ia tocar. Era um post-rock muito legal, mas tava tão frio que acabei indo me sentar em algum canto e acabei adormecendo, só acordando perto do fim do show.

Tentei ir dar uma olhada no The National, que é daquelas bandas que deveria ser proibida de fazer show, só pra ter raiva mesmo. São incapazes de passar emoção com a execução normal de suas músicas e então o vocalista fica fazendo munganga e gritando no palco pra tentar criar alguma coisa. É constrangedor. Se eles ao menos tocassem as boas músicas que têm de forma honesta e emocionante, mas não passam perto. Visando de novo evitar a multidão saindo do festival fiquei no Adiddas Original vendo o show da banda Mise En Scene, que mistura pop e rock de forma legal e sabem o que estão fazendo em um palco, mas eu simplesmente não consigo suportar desses vocais pop em que se grita e tempo todo, dói nos ouvidos.

O dia foi legal, mas os shows ruins no final e o frio horroroso me fizeram temer pelo terceiro e último dia... Mas esse acabaria sendo o melhor de todos.


Dia 3

Cheguei um pouco mais tarde no festival, perto das 18h, e vi alguns pedaços de shows mais ou menos até parar no Vice pra ver a Belako. Aparentemente são uma sensação espanhola, e depois de umas três músicas deu pra entende o porquê: a banda faz um rock nervoso com ótimos teclados e ótimo baixo, sabendo muito bem como botar fogo em um palco, o que sozinho já faz qualquer show, mas quando se tem boas músicas então... Fica sensacional. E daí que o guitarrista não sabia solar ou que os vocais rasgados fossem constrangedores? Era divertido demais, foi incrível.

Belako. Foto: Divulgação/Primavera Sound
Depois dessa subi pro ATP pra ver o Superchunk, que eu tinha ouvido falar que era legal. Realmente era, mas não era um show tanto pra mim... Embora tenha me prendido lá por uma hora, então qualidades teve. De lá para o "auditório" do Ray-Ban pra ver Caetano Veloso, e foi bom ter ido um pouco cedo, porque o lugar ficou abarrotado de gente. Nunca tinha visto um show do Caetano e realmente desconfiava que com bem 80 anos de idade ele seria capaz de fazer algo legal, mas quebrei a cara. O show foi extremamente divertido, deu pra dançar e era hilário ver o velhinho andando no palco acenando pra galera enquanto a banda fazia todo o instrumental das músicas.

De lá voltei direto pro ATP pra ver o Godspeed You! Black Emperor, que tinham me dito que era massa. Minha nossa, eu não acreditei no que tava vendo. Primeiro que demorei pra entender que o show tinha começado, com os membros da banda entrando aos poucos e aumentando a quantidade de sons na música, segundo que os telões estavam desligados e o palco mal iluminado. Mas essa era toda a ideia: criar um clima de imersão pra as eventuais explosões em canções que duravam 20 minutos. Eu tenho uma expressão, que roubei do Stephen King, pra descrever esses momentos: "total surrender of emotional control". É quando nada mais existe além do presente e a música é tudo. É perfeito e a melhor coisa que pode acontecer em um show, e esses caras fizeram isso por quase duas horas. Não precisaram falar uma palavra, elas só iam atrapalhar.

Ainda atordoado depois desse show rumei pros palcos principais, onde ia ter o Nine Inch Nails. Quase que eu não ia, porque coincidia com o show do Mogwai (que eu gosto muito mas que tinha visto no começo do ano). Ter de fato ido ver o NIN foi uma das melhores decisões da vida, porque o que eu vi naquele palco durante as horas seguintes foi a definição de "Espetáculo". Milagrosamente o som estava alto e perfeito e consegui ficar perto do palco sem estar em um aperto atroz. Desde o começo o espetáculo de luzes e as músicas foram simplesmente acachapantes, e eu assisti a várias boquiaberto (algo assim). Tocaram mais de 20 músicas, sendo umas poucas boas e todas as outras estupendas. Tive consciência de que se eu ouvisse a banda estaria seguidamente tendo convulsões de emoção ali, como muitos ao meu redor estavam. Se uma banda quer aprender a como usar um palco para aumentar o poder de um show, deveria assistir o NIN. É de outro mundo (o U2 também faz isso, mas aí você precisa aguentar as músicas deles).

Depois ainda teve o show do Foals, no palco em frente, que vi de longe enquanto mal me aguentava em pé. Tava bem legal, mas não o suficiente pra me aventurar a ir pro meio da galera.

Foto: Haniel Barbosa
E assim acabou o melhor festival da minha vida. Não em termos de quantidade de shows incríveis, mas em ser uma experiência sensacional. Me espere ano que vem, Primavera.

02 junho 2014



Grokar, Orchestre Noire
16 de maio de 2014
Natal, Rio Grande do Norte
trip hop/dark jazz/eletrônico
Para quem gosta de: Portishead, Kilimanjaro Darkjazz Ensemble, Warpaint

Baixe "Grokar" EP, Orchestre Noire



Orchestre Noire é uma das bandas mais interessantes que surgiu nos últimos tempos na cena natalense. Tendo como base um gênero musical que não é muito conhecido em terras brasileiras, eles misturam samples, baterias eletrônicas, vocais femininos e teclados num som bastante peculiar e único. Este ano, o trio, formado por Alex Duarte (guitarra e efeitos), Yasmin Lamacchia (voz e guitarra) e Laís Azevedo (bateria, samples, batidas eletrônicas) lançou o seu EP de estréia Grokar, que conta com 4 faixas próprias. No começo do ano, eles abriram o festival Under the Sun em Tabatinga/RN, chamando bastante atenção do público. 

Grokar começa com a faixa de mesmo nome, um instrumental bastante puxado pra música ambiente, permeada por várias texturas de samples e sintetizadores. Depois temos Barn Observer, onde enfim aparece um dos maiores destaques da banda: os vocais. A terceira música, Eros, segue na mesma onda da anterior: ritmos eletrônicos bem interessantes, levadas de piano e samples que se encaixam muito bem na proposta artística. O EP finaliza com Devil’s Haze, a música que mais se destaca dentre as outras, principalmente por causa das guitarras bem destacadas nela.

Apesar de ser uma banda nova, Orchestre Noire já mostra composições interessantes e que demonstram bastante experiência e criatividade, sendo uma das mais belas novidades que surgiram em solo natalense neste ano de 2014.



30 maio 2014

Los Campesinos! no Cultural Inglesa Festival 2014

Por Marcio BDA

Essa foi décima oitava edição do Cultura Inglesa Festival. Um festival que dura duas semanas festejando coisas da cultura inglesa(ish) e que nos últimos anos trouxe bandas bem legais para shows no último dia como Franz FerdinandThe Horrors e até Blood Red Shoes.

Neste ano os shows aconteceram no Memorial da América Latina, em São Paulo, e a maior parte do tempo debaixo de uma chuva fraca, mas insistente. Importante para este relato: durante  o período do shows você ainda poderia comer algumas comidas típicas inglesas como fish-and-chips, batatas bravas, pastéis ou churros (é... inglesas-ish).

Voltando aos shows, a primeira banda se chamava Staff Only. Pelo que eu entendi, era formada apenas por professores de algumas unidades da escola e essa foi a primeira apresentação deles neste festival. A empolgação do grupo era clara desde o primeiro ruido no palco e foi suficiente para animar alguns (não somente alunos) que prestigiavam na pista. Transeuntes decidindo entre gastar o dinheiro com fish-and-chips, comprar uma capa de chuva ou postar selfies no Instagram também pararam para ouvir a banda de teachers. Eles passaram por covers de Florence and the MachineRadioheadRolling StonesQueen - contando com uma versão própria de We Will Rock You e fechando com Another Brick in the Wall do Pink Floyd  (o que é um pouco surreal vindo de uma banda de professores).

O único ponto baixo na minha opinião foi a versão morna de Creep. Nunca assisti ninguém tocando a guitarra lead dessa música de uma maneira tão amena. Mas no fim das contas foi uma experiência positiva. Eles mostraram mais do que eu esperava vindo de uma banda de professores.

Eu seguida foi a vez do Voliere. Ok, preciso fazer um adendo: só agora pouco descobri que eles eram uma banda de alunos. E pela empolgação e naturalidade eu podia jurar que tinha visto uma banda com alguns anos de experiência na estrada e acostumada com palcos ainda maiores. Pois bem, a banda de quatro integrantes mesclou covers de Arctic MonkeysBloc Party e Strokes (afinal é uma deveria ser uma apresentação inglesa-ish) com músicas próprias que flertavam com o shoegaze. Estou aguardando pelo prometido EP deles.

Monique Maion foi a terceira a se apresentar no festival e aqui os problemas começaram a ficar evidentes. A cantora propôs uma performance de voz/piano/contrabaixo intimista em homenagem a Amy Winehouse que parecia interessante... até o baixo dar a primeira nota e cobrir completamente os vocais e graves do piano! Talvez o fato de não se comunicar muito com o público, estar boa parte da apresentação quase de costas e usar um repertório pouco conhecido tenha contribuído também, mas a sensação que ficou é que o show poderia ter sido muito melhor, especialmente pela equalização do som. A apresentação estava tão complicada que eu só reconheci uma música da PJ Harvey (da qual também sou fã) quando li os comentários no blog do festival.

Também preciso mencionar que noventa por cento da platéia (que estava lá exclusivamente para ver Jesus and the Mary Chain) ficou muito incomodada com a apresentação.

O quarto show foi principal motivo para a minha ida ao festival: Los Campesinos!, uma das minhas bandas preferidas e que eu menos tinha esperanças de ver por aqui.  Banda aliás, que conheci a uns 5 anos atrás, por culpa da Clara (editora do FUGA) sugerida num podcast.

O show começou com What Death Leaves Behind e como era de se esperar a maior parte foi composta por músicas do álbum No Blues. Durante as trocas de músicas o vocalista Gareth era simpático como sempre, se desculpando por não saber nada de português, exceto "obrigado", e comentando como eles se arrependiam de, nesses 8 anos de carreira, nunca terem vindo antes ao Brasil.

Duranta cerca de uma hora eles tocaram músicas como For FlotsamAs Lucene/The LowAvocado, BabyHello SadnessRomance is BoringDeath to Los Campesinos!We Are Beautiful, We Are DoomedYou! Me! Dancing e fecharam com The Sea is a Good Place to Think of the Future seguida de Sweet Dreams, Sweet Cheeks. A seleção de músicas me agradou bastante, apesar de achar inesperado o fato de tocarem (e fecharem o show com) as duas últimas.

No geral, a plateia (que cresceu consideravelmente) ficou composta de olhares perplexos tentando entender as músicas e uma dúzia de pessoas super empolgadas pulando e cantando no meio da multidão. Mas pela qualidade do show e pelo carisma de Gareth, aos poucos, essa animação foi aumentando e contagiando aqueles que não entendiam muito bem o som do bando de ingleses esquisitos. Aliás, ficou nítido como a esmagadora maioria estava ouvindo a banda pela primeira vez. E mesmo assim, o clima como um todo do show foi muito legal.

Mas nem tudo estava bom. O problema mais uma vez foi a equalização do som carregando absurdamente nos graves e sumindo com médios e agudos (que vocês podem comprovar neste link). Como se não bastasse os back vocals estavam tão baixos que eram quase imperceptíveis. Bem, todo festival tem problemas, mas quando a equipe técnica erra na equalização em 3 shows seguidos é vergonhoso. Apesar disso, minha admiração pela banda só aumentou porque foi incrível ver como eles se sentiram a vontade com o público e, mesmo com as falhas, conseguiram fazer um show memorável. A ponto de ouvir comentários como "Que banda legal! Eles são bons né? Vou procurar quando chegar em casa..." de um jovem cidadão de 1,80m atrás de mim na pista, enquanto me dirigia ao posto de saúde após o show.

Ah! E graças a minha dor de cabeça do inferno e estomago revirado (não sei se culpo o tempo, as batatas bravas, o churros "inglês" ou as estrelas...) tive que assistir o último show, Jesus and the Mary Chain, de um ponto bem distante do palco.

Nunca fui muito fã da banda e eles mesmos pareciam um tanto quanto enferrujados na minha opinião, chegando a tocar com guitarras desafinadas e parar algumas músicas no meio. Mas apesar disso tudo conseguiram cativar boa parte do público, que assim como eu, sonhava com a aparição da sua banda favorita por aqui. O repertório passou por músicas como SnakedriverHappy When it Rains e Reverence e, é lógico, Just Like Honey.

Bem, foi um festival com bandas muito legais e ainda de graça. Só por isso a Cultura Inglesa já merece toda a minha admiração. Mas as falhas de som atrapalharam (e muito) a experiências que os shows poderiam ter proporcionado. Espero que isso sirva de aprendizado para a equipe e que o padrão inglês de qualidade seja levado em conta ano que vem, bollocks!

Fatos interessantes do show:
  • Antes do início do show do Los Campesinos! Kim e o Tom ficaram verificando os instrumentos no palco. Praticamente ninguém sabia que eles eram da banda.
  • A frase "Jesus is coming..." nunca fez tanto sentido num show de rock
  • Capa de chuva tem a manga mais curta do que deveria. Por que?
  • Havia um quadro com o rosto de um senhor e as mãos desenhadas com grafite (ou carvão) no piano da Monique Maion. Ele me lembrava o Walter White.
  • Por incrível que pareça, a internet móvel funcionou perfeitamente.



27 maio 2014

Foto: Fora do Eixo/Vanessa Mota e Nando Magalhães
O Kung Fu Johnny está de volta depois de uma temporada adormecido. O mais novo registro é esta session no Cantilena, estúdio do seu vocalista, Ian Medeiros. Apenas o primeiro de dois vídeos gravados, o registro traz a performance de Nobody Likes Me, música que faz parte do EP Too Drunk To Think, lançado no ano passado. Além de apresentar o rock dançante e despretensioso do trio ao vivo, a session traz também a formação consolidada do Kung Fu Johnny com César Valença (ex-Venice Under Water) na guitarra, Fausto de Alencar (Camarones Orquestra Guitarrística) no baixo e Ian Medeiros (Mahmed) na bateria e no vocal.

Depois de lançar a segunda parte da session, o trio potiguar deve vir ainda com outras novidades. A banda pretende lançar, em breve, seu site oficial e trabalhar no seu primeiro clipe.

Para quem gosta de: The Black Keys, Arctic Monkeys, The Raconteurs


All I want
All I want
Well, mama does
Mamma does

All I want
All I want
You can't deny
You can't deny

'cause I'm strong
I'm the one

All the time
All the time
You know I'm right
You know I'm right

All the time
All the time
I'll pass you behind
Pass you behind

'cause I'm strong
I'm the one

Open the door
And what is left
I don't get it
I won but I'm sad
I am old
And nobody likes me
That's how I run
That's how I run

All I have
All I have
It's just the best
It's just the best

All I have
All I have
No one can get
No one can get

'cause I'm strong
I'm the one

Open the door
And what is left
I don't get it
I won but I'm sad
I am old
And nobody likes me
That's how I run
That's how I run


DISCOGRAFIA

Baixe "Little Beers Gas Station" (2012)
Baixe "Too Drunk To Think" EP (2013)

+ KUNG FU JOHNNY NO FACEBOOK
+ KUNG FU JOHNNY NO FUGA

19 maio 2014



Built on Glass, Chet Faker
1º de abril de 2014
Melbourne, Australia
eletrônica, soul, downtempo 
Para quem gosta de: Flume, James Blake, Bon Iver




Chet Faker é um desses artistas que você tem que ouvir caso você queira ter um pouco de conhecimento e ser cool quando se trata de músicas e artistas modernos.

Este é o primeiro álbum do australiano Nicholas James Murphy, que atende pelo nome artístico de Chet Faker. Faker foi descoberto em 2011 pelo também australiano selo Future Classic, o mesmo selo responsável por respeitáveis artistas (vamos deixar claro que não estamos falando de David Guetta ou Calvin Harris) do meio experimental eletrônico, trip-hop e shoegaze, como Flume, What So Not e Jamie Lloyd. Vale a pena mencionar que este selo é voltado para o tão esquecido ou "vendido" (haha) meio eletrônico.

Em 2012, Faker lançou um EP, Thinking in Textures, que alcançou um grande sucesso devido ao cover de No Diggity, do Blackstreet, promovido por um comercial de TV do Super Bowl

A consistência do Faker não mudou desde então, inúmeras são as tags que poderíamos usar pra descrever seu trabalho: downtempo, trip-hop, eletrônica, shoegaze, lo-fi, smooth e post-dubstep, mas o que não podemos deixar de fora são as suas grandes influências musicais: jazz e soul. Afinal, seu nome artístico é Chet Faker, uma homenagem à Chet Baker (apesar de não compartilharem muito mais que um nome e amor por jazz).

A todos os fãs que se pegaram interessados em Chet Faker pelo sucesso de 2012, No Diggity, e pelo Thinking in Textures, um aviso: vocês não estão sendo deixados de lado com o Built on Glass. Todos os elementos continuam lá. As letras emotivas e existencialistas que majoritariamente falam de amor, perdas e dias de folga; aquele multiplied vocal; o jazz; e o soul.

O disco começa com Release Your Problems, uma das minhas favoritas no disco, que passa uma ideia de sentimento de alivio após uma longa briga ou longa noite (funciona melhor em inglês long night/fight). Em seguida temos Talk is Cheap, que é o primeiro single do álbum, é um ótimo resumo da proposta do álbum, e não me surpreende se você disser que se pegou cantarolando o refrão no seu caminho pro trabalho.

Em seguida No Advice, uma faixa interlude, onde Faker mostra um pouco dos seus dotes como DJ e produtor. Melt é uma faixa featuring Kilo Kish, que já tinha sido lançada antes do álbum, e novamente ressaltando existencialismo: "My happiness is some kind of f***ed up mess / My loneliness will take no part in this". Enquanto isso, Gold traz um R&B moderno, e talvez eu esteja enganado, mas ele até tenta um arranjos afro-americanos tão comuns e normalmente relacionados ao R&B. Honestamente minha parte favorita desde faixa são os últimos 45 segundos, apenas um instrumental lounge e um backing-vocal. Se você comprar um LP poderá ouvir mais precisamente a divisão do disco, na primeira metade com influências e homenagens ao soul são tratadas de maneira bem mais óbvias, na segunda o eletrônico toma lugar, começando com a faixa interlude, /. Pulando algumas faixas vamos falar sobre 1998, minha favorita do álbum inteiro, um viés eletrônico muito mais intenso, e talvez a razão pela qual um selo de música eletrônica viu potencial em Faker. Na última faixa do álbum, Dead Body, Chet canta: nobody grows for free. Se você estava procurando alguma mensagem pra tirar desde disco, aí está.

 
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