SOBRE COLORIR, GRAVAR UM DISCO, FOFURAS E... MÚSICA: HIDROCOR


Para Rodrigo Caldas, algo como se Roberto Carlos inventasse de tocar versões fofas de funk carioca no violão e tamborzinho. Já para Marcelo Perdido: música pop, fácil e que qualquer um consegue tocar no violão. “Como tem o violão como base, as pessoas costumam associar ao folk, mas acho que é um tipo de música feito por jovens adultos, cantanda em português, sem muitas pretensões”, argumenta.

Se uma aquarela em lápis de cor geralmente tem 24 tonalidades, a banda paulistana Hidrocor só precisa de duas, ou melhor de dois: Rodrigo Caldas [bateria] e Marcelo Perdido [voz e violão]. “A gente realmente gosta de desenhar com canetinhas hidrocor, estamos sempre rabiscando coisas. É uma mania que veio da infância e continua com a gente, por isso demos o nome de Hidrocor para a banda”, justifica Perdido na entrevista feita por e-mail ao FUGA.

Em fevereiro, enquanto as escolas de samba acertavam detalhes finais dos seus desfiles ou "Malvo e Pilar se casavam" [?], os dois finalmente concluíram as gravações do primeiro álbum, momento que consideram até agora como o mais especial da carreira [O/\O]. E é sobre um pouco disso tudo que se trata a conversa que você vai ler a seguir. 

Marcelo Perdido e Rodrigo Caldas - foto: Fernanda Vidal
Com 14 faixas, Edifício Bambi, lançado em março - e que está disponível para download gratuito no site do duo - faz referência ao local próximo à Avenida Paulista onde Perdido morou e consequentemente onde foram feitas muitas das músicas que estão no disco. 

“Eu queria que fosse O Ataque Dos Zumbis Marcianos Meta Morfos, Que Só Comem Ovo Cozinho Em Conserva Verde - mas o Perdido me convenceu que seria difícil das pessoas falarem esse nome nas lojas, na hora de comprar o disco”, brinca Caldas dizendo também que o processo de gravação foi mais prazeroso do que necessariamente difícil, já que lhe proporcionava grande possibilidade de experimentação.

“Cara processo INDIE né? Gravamos em 3 lugares diferentes, em muitas sessões quebradas. O Felipe Parra [produtor] teve de costurar tudo e depois dar uma cara de ‘disco’ para a coisa toda. Eu sinceramente espero que o próximo a gente consiga ‘parar’ para fazer. Acho que vai ser menos penoso, mas o importante é fazer né... se tivermos que repetir todo esse processo esquizofrênico também, tudo bem! O Importante é continuar fazendo música”, contraria Perdido.

A história contada nas canções de Edifício Bambi que na concepção do duo é singela, formada por situações simples, vividas por personagens comuns, foi revelada completa para o público. Eles contam que basicamente tudo o que foi criado entrou no álbum, mas que muitas outras novas músicas foram compostas desde então. 

“Se a pergunta for no sentido ‘Vocês tem outras músicas para mostrar?’ a resposta é SIIIIIIM, e estou tentando segurar a onda para não atropelar esse CD lançando o próximo logo. Acho que temos de trabalhar bastante o Edifício Bambi primeiro”, argumenta Perdido.

“Como ele disse, por serem ideias singelas, as pessoas se identificam. Nossas músicas são sobre situações simples, vividas por jovens como a gente, fica fácil se identificar.. Então normalmente o retorno é positivo. Claro que tem gente que não gosta, não se identifica”, complementa Caldas analisando a recepção do público.

Edifício Bambi, o 1º álbum da Hidrocor
Se você gosta de bandas adeptas da boa filosofia que prega que ideias simples geram bons videoclipes [à la Ok Go!], então pode adicionar a Hidrocor na lista. Até agora três faixas ganharam vídeos bem criativos. Para captar a atenção em frente ao player do Youtube, em Vou Voltar, lançado no ano passado, foi necessário apenas uma “parede de papel”, já em Ma Cherie um simpático casal de bonequinhos viajar em lua de mel pelo mundo. 

"Minha Esposa quem teve a ideia e dirigiu a coisa toda, a gente já ia levar nossos bonecos do bolo de casamento para tirar umas fotos na lua de mel (a gente saiu de lua de mel um tempão depois de ter casado), e é uma ideia singela né? Acho que por isso as pessoas gostam e se identificam", detalha o vocalista sobre a origem do vídeo "fofinho".

A coisa ficou séria mesmo para o clipe, ou melhor para oS clipeS, do carro chefe do debut, Edificío Bambi, quando Marcelo e Rodrigo resolveram lançar o vídeo em duas versões: uma sangrenta e outra mais fofinha. Você é que escolhe.





“Eu queria fazer uma coisa diferente e que pudesse ser "escolhida" por quem assiste, pois tem uma turma que gosta mais do lado fofo da Hidrocor, e tem uma turma que gosta do lado maluco. Deu muito trabalho esse clipe, a gente tá caprichando nele há mais de 1 ano, era para ter saído antes mesmo de Vou Voltar e de Ma Cherie (nossos videos anteriores desse CD), mas não tivemos pressa e fomos lapidando tudo”, explica Perdido

A participação da Laura Lavieri é classificada como a “cereja do bolo”, “pois no vídeo com a versão da história toda, eu queria que o personagem fosse influenciado por alguém a cometer o assassinato, e ai junto com o João Erbetta (que também aparece no vídeo, ele é o Apresentador) fiz a música de Mate Sua Mulher Agora!, decidimos chamar a Laura pois ela assim como a Hidrocor, ela sofre com o mesmo "rótulo" de ser "fofinha", queríamos que fosse inesperado!”, explica.

Até o final do ano, mais um videoclipe deve ser lançado, mas eles preferem não revelar para qual faixa, apenas que deve ser gravado entre outubro e novembro e que as coisas já estão bem encaminhadas. "O que a gente quer agora é tocar por ai, ver ao vivo o feedback positivo que temos recebido pela Internet", conclui Caldas.



PING-PONG

Quais são suas cores favoritas?
PERDIDO: Laranja/Marrom
CALDAS: Preto e Amarelo 

Vocês já se conheciam mesmo e desenhavam desde pequeno? 
C: Apesar de amarmos desenhar com canetinhas hidrocor, esse papo de que nos conhecemos na infância é brincadeira, coisa da cabeça do Perdido

Quando vocês tiveram certeza que música seria o caminho certo a seguir?
P: Essa é uma pergunta difícil, pois não dá para ter certeza de que a música vai nos sustentar, por exemplo, mas sem sombra de dúvidas é o caminho certo para se seguir. É o que nos faz feliz, e você já deve ter ouvido por ai que o caminho certo é o da felicidade. O grande lance é continuar feliz só em "fazer música" pois isso é de graça e poderemos fazer para sempre, o problema é começar a colocar todas suas expectativas de retorno financeira em cima das músicas, é nessa que muitas bandas se frustram. 

O que vocês ouviam e quem admiravam enquanto ainda eram os personagens principais de "você só pode estar brincando" ?
P: Acho que ainda somos os personagens principais de "você só pode estar brincando", alias esse quase foi o nome do nosso CD, pois apesar de levarmos muito a serio, fazer música e tocar nos shows é 100% diversão! Nossas referências musicais são muito variadas, eu gosto de Claudinho e Buchecha, o Caldas de Elvis... Então para não dar briga gostamos de dizer que curtimos as bandas que fazem música agora, pois elas já vem recheadas de influências que também curtimos, para citar alguns nomes: Marcelo Jeneci, Lulina, Apanhador Só, Tatá Aeroplano, Bazar Pamplona.

Como vocês compõem? Existe algum tema ou "ritual" específico?
C: O Perdido vem com a letra e a melodia no violão, ai vamos criando em cima, depois vamos tirando as coisas que criamos para não ficar muito malucona. 

Alguma música surpreendeu a banda depois de finalizada?
C: Ma Cherie. Até dias antes eu nem conhecia a musica. 

P: Eu gosto de Recém, acho o arranjo final lindo. De lembrar dela só no violão e agora ouvir com os metais e a sanfona... me deixa muito feliz, acho muito bonito. Fim também me surpreende, aquela guitarrada do final, com os metais, carnavalzinho de rua... se você pensar que todas as musicas nasceram num violãozinho de nylon... poxa! 

Hidrocor - Laranja & Marrom / Preto & Amarelo - foto: Fernanda Vidal

Ma Cherie e Listras e Xadrez brincam um pouco com essa moda do cool em alta hoje em dia. Isso de alguma forma preocupou vocês na hora de fazer o álbum? De ser "cool"?
C: Se ser cool, não estiver relacionado a tomar muito sorvete bem gelado. Eu não quero saber o que é ser cool

P: A gente não queria ser cool. Acho que ambas as músicas nasceram já nessa epoca da minha vida que eu sei o que eu sou, do que eu gosto e principalmente que tenho muita preguiça de tentar gostar ou ser uma outra coisa. Mas também as letras não são tão literais né? Ma Cherie é mais sobre tentar parecer algo que você não é na hora de conquistar uma pessoa, do que sobre falar francês no Brasil. Listras e Xadrez também não é tão literal, não é sobre a modinha das roupas, e sim sobre uma valorização da tristeza e da infelicidade que algumas pessoas vendem como se fosse algo legal, sendo que não é né? No fim das contas, as pessoas querem se encontrar, estar juntas, compartilhar sentimentos... ou pelo menos deveriam querer. 

Em Ma Cherie, vocês comentam que "Isso deve ser coisa dessa nova MPB" como vocês avaliam essa "nova MPB"?
P: Eu não gosto de quem acha que está dando continuidade para uma coisa que foi feita há muito tempo atrás, tipo querer fazer parte de uma turma que não é a sua! Todo mundo que tenta fazer um estilo de música, no meu entender, já começou meio fazendo errado. Não gosto de pensar que vou acordar um dia e pensar: "hoje vou fazer um reggae", poxa tem de vir naturalmente, isso que incomoda : a falta de naturalidade que algumas coisas parecem ter, a letra de Ma Cherie toda é sobre isso né? Tipo o camarada que não sabe nem falar português direito ir no show de calouros e querer cantar uma música em francês.

Sobre Descolorindo, como surgiu essa música e do que trata exatamente?
P: A minha mulher é designer e ela tinha esquecido uma tabela de cores no meu quarto, tinha todos aqueles nomes curiosos para as cores como: Jade, Jambo. Eu comecei a pensar: "quem trabalha com cores nunca deve ficar triste né?" Porque cor tem essa coisa de "colorir"a vida das pessoas né? Só que isso é muito superficial, independente do que você faça/mostre para as pessoas, todo mundo fica triste né? Mesmo que você disfarce com um sorriso, as vezes você se sente preto e branco no meio de um mar de gente coloridona. É uma música meio escondidinha ali no CD, acho que as algumas pessoas devem até pular, mas eu acho lindinha. 

Vocês conhecem Natal? Tem alguma previsão para tocar aqui?
P: Eu já fui com minha família bem rapidinho e adorei, comi várias coisas gostosas. Eu lembro que fiquei meio triste só com a pobreza que vi pela cidade, eu via um montão de gringo gastando, eu mesmo numa situação de "estar de férias" e um monte de criança pedindo dinheiro. Acho que isso é muito triste, mas é uma mazela do Brasil inteiro, no Rio é assim também... você está em um puta lugar lindo, e do seu lado tem gente passando necessidade. Nunca fui para tocar, adoro o sotaque e queria ver alguém cantando nossas músicas desse jeitinho! Quero muito tocar em Natal, é só convidar que vamos!!